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Maristas na mídia
Zero Hora - 29 de agosto de 2005
Caderno Meu filho
As 2.188 páginas da saga Harry Potter podem ser só o começo. Os fãs do personagem descobrem com ele o prazer de ler
Joana Saraiva
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Fotos: Júlio Cordeiro |
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| Michele Monteiro, 12 anos, tornou-se uma devoradora de livros |
De cabelos negros, óculos e uma cicatriz na testa, o magricela Harry Potter faz mágica. Criado pela escocesa J.K. Rowling, o menino-bruxo já contabiliza seis volumes em uma coleção de aventuras que vem recrutando leitores ao redor do mundo. São livrões sem ilustrações, mas a linguagem simples e fluida atrai leitores como Michele Monteiro, 12 anos. Fã do aprendiz de feiticeiro desde os nove, a guria já leu todos os livros da série e aguarda ansiosamente por cada novo lançamento.
- Tem livros que são muito parados, chegam ao meio e nada acontece. O Harry Potter é interessante do começo ao fim, a gente começa a ler e não consegue parar - justifica.
Michele encontrou nas páginas de Harry Potter um novo significado para a leitura, que virou atividade de lazer. A duplicidade entre o mundo real (dos trouxas) e o mundo mágico (dos bruxos), que pode ser transposta para as dificuldades que as crianças encontram frente ao mundo dos adultos, é um dos atrativos da série apontados por Sissa Jacoby, doutora em Letras e professora da PUCRS. Além disso, Harry Potter não é um herói convencional: ele vive experiências nas quais as crianças se reconhecem.
- Nunca as crianças leram tanto e em tão pouco tempo movidas simplesmente pelo prazer, e isso faz com que elas vejam o ato de ler de outra forma - afirma Sissa.
Antes de começar a ler Harry Potter, a grossura dos livros de histórias assustava Michele. Na hora de selecionar um dos títulos propostos pelo colégio, escolhia sempre o menor. Acostumada pelos pais, Jaqueline Alves Monteiro e Roberto Noal Monteiro, a ler desde pequena, antes mesmo da alfabetização a guria tinha à mão livrinhos com ilustrações e interatividade. Mas o número de páginas era um bloqueio na hora de escolher a leitura ideal, talvez porque os títulos não estivessem adequados ao gosto de Michele.
- Percebo que quando ela gosta de um livro lê rápido, mas quando ela não se interessa pelo assunto ou o texto não agrada demora bem mais - conta Jaqueline.
Se no primeiro momento o tamanho dos livros do aprendiz de feiticeiro assustou Michele, ao terminar de ler o primeiro volume ela queria mais. A ansiedade de saber o que iria acontecer depois fez da guria uma devoradora de letrinhas. Das linhas de J.K. Rowling, foi encontrando novos caminhos para seguir alimentando aquilo que se tornaria uma nova diversão: a leitura. Entre os títulos preferidos está Acontece na cidade, obra que reúne crônicas de autores como Ignácio de Loyola Brandão, Millôr Fernandes e Ferreira Gullar.
- Ela lê bastante porque gosta mesmo, e tem uma redação excelente por isso - conta a mãe, orgulhosa.
Segundo Ana Mariza Filipouski, doutora em Teoria Literária e colaboradora do Núcleo de Integração Universidade e Escola da UFRGS, a leitura de Harry Potter é uma oportunidade para que os pequenos passem a se interessar também por outros autores.
- Para fazer com que eles sigam lendo, basta prestar atenção no que lhes interessou e oferecer outras opções - afirma Ana Mariza.
A saga dos gibis ao livrão sem ilustrações

Onze anos recém completados e Eduardo Bolsson já leu e releu os cinco livros de Harry Potter publicados no Brasil até agora. Altas doses de ação e aventura, que povoam essas 2.188 páginas da saga do bruxinho inglês, são a explicação para tamanho interesse.
Depois de assistir ao filme Harry Potter e a pedra filosofal, em 2001, Eduardo, que era fã de gibis, resolveu encarar um livrão de 288 páginas e nenhuma ilustração. Tudo para saber o desfecho da história do menino que, aos 11 anos, descobre que é bruxo.
- Histórias com aventura me interessam. Vi o filme e fui direto ler o segundo livro para saber o que mais iria acontecer - conta Eduardo, que já encomendou a versão em português do sexto livro de Harry Potter, que deve sair até o fim do ano, para a vó Maria Lúcia.
Dos livros da escocesa J.K. Rowling, Eduardo partiu para a descoberta de autores como Ruth Rocha (ele adorou o conto A odisséia) e os gaúchos Luis Fernando Verissimo e Marcelo Carneiro da Cunha, entre outros. O bancário Fernando de Freitas Bolsson, 35 anos, e a funcionária pública Lilian Kerber Bolsson, 36, não precisam insistir para que o filho leia. Quando Eduardo entrou na escola, fizeram um acordo: pelo menos uma hora por dia, de manhã, seria reservada para fazer os temas. O dia em que não tivesse tema, usaria esse momento para ler. A proposta era dedicar 60 minutos à tarefa, mas o Eduardo nunca cumpre: acaba excedendo o tempo.
- Ele pega um livro e, se gosta, não desgruda até terminar - conta Fernando.
| Criar leitores não é tarefa apenas da escola. Incentive e dê exemplo |
| Quanto mais a criança for exposta às cantigas, às narrativas, aos poemas, melhor. Cercar seu filho de oralidade desde cedo ajuda a desenvolver habilidades de linguagem. Quando a criança é estimulada, desenvolve muito mais a capacidade de expressão. |
| As crianças são naturalmente interessadas em ouvir histórias. Mostrar que é do livro que saem as histórias legais que os adultos lêem é uma boa forma de estimular uma relação afetiva e positiva com a leitura desde cedo. No momento em que começar o processo de alfabetização, a criança vai querer ler. |
| Insira o livro no universo de experiência das crianças. Faça-o pertencer, assim como os brinquedos, ao conjunto de objetos com os quais os pequenos interagem no dia-a-dia. Para os menores, o livro precisa ser versátil, colorido, resistente (existem alguns que podem, inclusive, ser levados para o banho), permitindo que a criança possa curti-lo assim como usufrui dos brinquedos. |
| As crianças aprendem muito reproduzindo as atividades dos pais, por isso o exemplo vindo dos adultos é tão importante para incentivar os pequenos a ler. Quando é um hábito dos pais, a criança terá a percepção de que ler é bom, o que irá despertar sua curiosidade para a leitura. Pais leitores são um grande estímulo na formação de pequenos leitores, que poderão adotar a leitura como um prazer para a vida inteira. |
| Quando o livro não faz parte do universo de cultura dos pais, dificilmente terá espaço significativo no mundo de experiências da criança. Se os pequenos vêem os adultos apenas assistindo à televisão, mexendo no computador, falando ao telefone, vão reproduzir essas atividades. |
| Ler não é a primeira opção das crianças em um mundo com desenhos animados, filmes, videogames, Internet etc. Aproxime a criança da leitura, crie momentos para ler e mostre que a atividade pode ser tão ou mais interessante que assistir a um filme ou a um programa de televisão. |
| A aproximação entre a criança e os livros muita vezes é vista erroneamente como uma tarefa exclusiva da escola. A instituição tem papel importante nesse contato das crianças com os livros e desenvolve aprendizagens através da leitura, mas ela sozinha não tem poder de formar leitores. Os pequenos precisam encontrar significados que ultrapassem o sentido da leitura escolar e trazer de casa uma relação afetiva com os livros, construída com a família. |
| Crianças que só têm contato com os livros por meio da escola correm o risco de, à medida em que vão crescendo, encará-lo como uma coisa chata e a leitura, como uma obrigação. Esse problema tende a se agravar a partir da 5ª série do Ensino Fundamental. |
| Fontes: Ana Mariza Filipouski, doutora em Teoria Literária, professora de teoria literária na Fapa e colaboradora do Núcleo de Integração Universidade e Escola da UFRGS, e Sissa Jacoby, doutora em Letras, professora da Pontifícia Universidade Católica do Estado (PUCRS), especialista em literatura infantil |
| "O que faz uma criança ler é o exemplo dado pelos pais, pelos adultos. Estar em um ambiente onde a leitura é estimulada desperta a curiosidade dos pequenos para os livros e o mundo da literatura. Nesse sentido, a série de livros do Harry Potter teve um elemento maravilhoso, que foi o encantamento também dos adultos com as histórias, que criou um ambiente favorável para a leitura pelas crianças. E os livros de J.K. Rowling não decepcionam: são interessantes, instigantes, bons." Ana Maria Machado, escritora |
| "Ler livros na infância, se eles forem divertidos, sempre é uma 'entrada' para a leitura. No meu caso, livros infantis, gibis e logo o Monteiro Lobato foram meu ingresso no hábito de consumir livros apenas por lazer. Os livros com o Harry Potter fazem imenso sucesso sabe por quê? Pensa que eu vou dizer que é por causa de boas estratégias de marketing? Nada disso. Quando um livro é ruim, não há marketing que o transforme em sucesso. O caso da J.K. Rowling é simples: os livros são ótimos! Na minha opinião, esta escocesa é a única lobatiana de verdade no mundo depois de Lobato. Harry Potter é uma espécie de Cinderela, que vive sofrendo na mão de tutores malvados e faz uma viagem mágica onde tudo é possível. Bingo! Lobato puro! E tudo sem moralismos, sem pretender ensinar nada, somente divertir e fazer sonhar. É por isso que crianças mergulham prazerosamente em livros de mil páginas, devorando-os e lamentando quando eles chegam ao fim. Queria eu ter de novo nove anos para me divertir com as aventuras do fabuloso bruxinho!" Pedro Bandeira, escritor |
| Bruxas, fadas e bichos são infalíveis |
| Veja algumas dicas para escolher livros infanto-juvenis: |
| Antes da alfabetização, na fase de pré-leitura, os livros com ilustração são importantes para captar a atenção dos pequenos. Depois de ouvir a história de um adulto, a criança começa a recontar a história com trechos que memorizou, associando-os ao que vê nas ilustrações. No livro infantil, a ilustração é tão importante quanto o texto. |
| As crianças não se desenvolvem uniformemente, mas a indicação de faixa etária nos catálogos das editoras pode ser de grande ajuda na hora de escolher livros infantis. Vale também pedir sugestões e indicações em livrarias com atendimento especializado para literatura infanto-juvenil. |
| Freqüentar a seção infanto-juvenil de livrarias com a criança, deixando-a manusear os livros, permite observar os que lhe interessam mais. |
| Bruxas, fadas e bichos costumam agradar os pequenos (até os sete, oito anos). Depois, os interesses vão se ampliando. |
| Os livros trazem enriquecimento para quem lê, mas o conceito de ensinar não se aplica à literatura. O texto literário infantil não pode ser pensado para ensinar, ou não é literatura. Um bom livro é uma recriação do real, em cujas ações e situações a criança pode se ver, ampliar seu mundo a partir das vivências possíveis na pele daquele personagem, estimulando a reflexão e a visão crítica. |
| Depois de dar um livro de presente, é recomendado observar se a criança gostou da obra, se o assunto lhe interessou. A escolha dos livros deve se dar sempre com base nas preferências da criança. |
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