Revista da Província Marista do Rio Grande do Sul – Porto Alegre – RS
Ano 10 – número 36 – Primeiro semestre de 2010
Educação
A escola como celeiro da pesquisa científica

Nos últimos anos, problemas, hipóteses e métodos científicos têm se tornado ainda mais presentes no cotidiano escolar e a iniciação científica se revela como uma maneira eficiente de envolver os alunos em um processo de aprendizado multidisciplinar e instigante, que vai muito além da assimilação de conhecimentos científicos 

Num contexto em que a escola e seus educadores são desafiados a aproximar ainda mais o conteúdo da experiência real de vida dos estudantes, a pesquisa científica se apresenta como uma das propostas de ensino que atendem a essa demanda. Mais do que apropriar-se de dados de uma ciência específica, a prática da cultura científica, como defende o pesquisador francês, crítico da ciência contemporânea, Jean-Marc Lévy-Leblond, proporciona aos estudantes o entendimento da relação que há entre os fenômenos naturais, humanos e sociais a partir da perspectiva de diversas ciências. Além disso, possibilita a democratização do saber científico.
Tal ideia perpassa as obras de Lévy-Leblond, como em O Pensar e a Prática da Ciência (Edusc, 2006) e no artigo Cultura Científica: impossível e necessária (Cultura Científica, Edusc-Fapesp, 2006), junto à convicção de que já não há mais a dicotomia entre “cientistas” e “leigos”, a não ser em campos bem delimitados de especialização. A disseminação da pesquisa científica nas escolas, de certa forma, atende a essa necessidade de democratização e interfere positivamente na formação dos estudantes, não só no que se refere ao seu desenvolvimento cognitivo, mas também de hábitos, valores e saberes sociais. 

Conforme a doutora em Psicologia do Desenvolvimento, Monica Estrázulas, coordenadora do Salão UFRGS Jovem, um dos principais eventos destinados à divulgação das pesquisas realizadas por estudantes da educação básica, o incentivo à pesquisa contribui para a formação de uma inteligência e intelectualidade necessárias à criação de soluções inovadoras. “Tais operações dependem da presença de estruturas cognitivas que somente se desenvolvem a partir da interação entre sujeitos e destes com o restante do meio. Além disso, na Educação Básica, a iniciação científica assume papel relevante ao favorecer a atividade livre e criativa de crianças e jovens, quando a subordinam aos métodos de justificação e discussão, aos de controle e verificação da ciência”, complementa.

O prazer da descoberta e da experimentação que a prática da pesquisa proporciona desperta um aluno questionador e crítico, capaz de relacionar saberes e redescobrir a aplicação das teorias na realidade cotidiana. “Acredito na relevância de desenvolver uma construção prática em sujeitos que estão em processo de formação”, afirma a professora de Química dos Colégios Maristas Assunção e São Pedro, Lisandra Catalan do Amaral, que desde 2006 orienta pesquisas científicas na Rede Marista.  

A iniciação científica possibilita essa aliança entre teoria, prática e a relação entre esse conhecimento e a realidade. Partindo do princípio que a mente humana é mobilizada pelos problemas, explica a professora, pela busca do entendimento de questões do dia a dia, a investigação tem um papel importante na medida em que oportuniza a descoberta ou redescoberta de fatos científicos revelando que a ciência é uma “construção humana que está em constante movimento e relacionada diretamente ao cotidiano do aluno”, ressalta.
Trata-se também de uma atividade provocativa, complementa a professora Mônica. Fenômenos, ideias, soluções, entender como ocorrem, o que os provocam, quais as consequências, relacionar teorias em busca de respostas e aprender a aprender através de perguntas. Processos em que educador e estudante tornam-se aprendizes e companheiros, “à medida que ambos se envolvem como reais parceiros na solução de desafios que colocaram para si mesmos”, destaca. Lisandra percebe essa relação presente do jeito marista de ensinar: “A aproximação do professor orientador com os seus orientandos, consolida as relações pessoais de parceria, confiança, respeito que são características muito presentes no Ensino Marista”. 

Para além dos muros da escola

A iniciação científica pode contribuir fundamentalmente não só para o desenvolvimento sociocognitivo, ressalta Marisa,  mas também por consequência, para a formação de cidadãos conscientes e capazes de produzir transformações que melhorem a vida de todos.
Por outro lado, alguns desafios impõem-se ao educador e à formação oferecida no Ensino Superior. “A prática da pesquisa ou a iniciação científica nas escolas de Educação Básica torna-se também um desafio à formação universitária, pois requer do Ensino Superior investimento na formação de professores especialistas em condições de orientar projetos de iniciação científica de crianças e jovens nas escolas”, alerta Mônica. 

Levar as pesquisas para além da escola é também uma realidade que requer dos estudantes determinadas habilidades. Assim, a iniciação científica também estimula neles o desenvolvimento da capacidade de expor suas descobertas.  Nos Colégios Maristas, mostras, feiras de ciência, entre outros eventos, abrem espaço para que os alunos partilhem seus projetos e exercitem a oralidade e responsabilidade, além de outras habilidades. Com o mesmo intuito, há dois anos, iniciativas de Rede têm reunido estudantes de todas as escolas do Estado, motivando a cultura científica e divulgando o trabalho realizado pelas unidades. 

É o caso do Salão de Iniciação Científica da Rede Marista que nasceu com a proposta de incentivar a possibilidade da pesquisa entre os alunos desde o início da sua formação. Em 2009, o Salão contou com a participação de onze colégios maristas, mais de 70 pesquisas sobre assuntos que envolvem temas, como ciência, tecnologia, saúde e meio ambiente. Cerca de 58 professores e 800 alunos estiveram envolvidos nos dois dias em que os estudos estiveram à disposição no Colégio Marista Champagnat, no campus da PUCRS, em Porto Alegre.

A aliança entre robótica e ciência

A pesquisa também está presente no Desafio de Robôs da Rede Marista, que ocorre paralelamente ao Salão. Para somar pontos no desafio, os jovens têm de apresentar, frente a uma banca avaliadora, um problema socioambiental ou qualquer outro mal que afete a sociedade, de acordo com uma temática pré-estabelecida, e uma solução inovadora para ele.  Desde o preparo e domínio de conteúdo necessários para a explicação de seus pôsteres no salão, até à postura e organização da apresentação dos trabalhos de pesquisa perante à banca, os estudantes vivenciam experiências que fornecem a eles, além de conhecimento, preparo para as demais fases da vida escolar e universitária. 

O Engenheiro do Laboratório CIM (Computer Integrated Manufacturing) da PUCRS, Mestre em Engenharia Elétrica, foi um dos avaliadores dessa edição do Desafios de Robôs e diz ter-se surpreendido com o desempenho dos alunos na defesa de suas pesquisas e com a relevância dos de temas escolhidos por eles. “É muito bom ver os alunos debatendo assuntos, como drogas, violência no trânsito, violência contra a mulher e na própria escola, isso permite que os mesmos reflitam sobre esses assuntos e vislumbrem possíveis soluções para esses problemas do nosso dia a dia.”

Há alguns anos, as universidades, que já tradicionalmente realizavam seus eventos da área para os universitários, passaram a abrir espaços também para as pesquisas da Educação Básica, como é o caso do Salão UFRGS Jovem, organizado pela  Pró-Reitoria de Pesquisa Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da Feira de Ciências e Inovação, promovida pelo Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS. Um dos maiores ganhos desses eventos é o estímulo à pesquisa e partilha de conhecimentos. 

É o que acredita a coordenadora do Salão UFRGS Jovem: “A cada ano, mais e mais estudantes e professores orientadores têm compartilhado processos e resultados de suas investigações, ao longo da semana acadêmica, realizada em outubro”. São oportunidades de grande importância para os estudantes já que em eventos como esses podem socializar os resultados de seus projetos, conviver em ambientes acadêmicos, além de se prepararem para desafios que poderão encontrar no Ensino Superior.

^ topo