Revista da Província Marista do Rio Grande do Sul – Porto Alegre – RS
Ano 10 – número 36 – Primeiro semestre de 2010
Especial
O que te faz feliz?

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz!
(Da Felicidade, Mário Quintana)

É ali, bem ali, onde os olhos apressados não conseguem perceber, que pode repousar a felicidade. Os versos de Quintana traduzem com poesia a relação do homem com esse sentimento, estado, essa sensação (haveria uma categoria que dê conta do seu sentido?). Uma busca infinita, uma utopia, algo que não se consegue ver, no sentido de “olhar”, pois que é preciso perceber, no sentido literal do verbo: conceber pelos sentidos. Há quem acredite que só assim é possível encontrá-la, já que ela pode estar tão próxima, logo ali, como os óculos na ponta do nariz.

O conceito de felicidade nasceu na Grécia antiga e ultrapassou civilizações sem alcançar um sentido unânime. E talvez o homem nunca chegue a um consenso sobre o que verdadeiramente ela significa, ou descubra um caminho para encontrá-la, porque ela depende, sobretudo, dos olhos de quem a vê. 

E o que você responderia se neste exato instante alguém lhe perguntasse “O que te faz feliz?”. “Dormir na rede, matar a sede, ler ou viver um romance, um lápis, uma letra, uma conversa boa”. Arnaldo Antunes oferece varias opções de resposta no texto que leva tal pergunta como título. O lançamento da Campanha de Fidelização e Captação da Rede Marista levou essa questão para dentro das escolas. Ela ecoou pelos recreios dos colégios maristas e as respostas, mais do que significados que a felicidade assume na contemporaneidade, são traços vivos de como pensam e sentem as crianças e jovens de hoje. 

Tímidos ou não, quando questionados, a resposta, quase sempre, demorava a sair. “O que mesmo me faz feliz?”. Depois de um momento de reflexão, surgia em cada resposta a prova de que é mesmo na simplicidade que pode estar a felicidade. Como em um pequeno ou grande gesto: compartilhar. Em um hobby: jogar futebol. Em um jeito de ser: ser gremista, ser colorado, ser PJM. Ou em uma forma de estar: estar com os amigos, estar de bem com a vida(4). A felicidade pode estar em uma ação como brincar ou dormir até tarde, ou em um desejo: passar no vestibular. Em um verbo transitivo respeitar ou em um intransitivo amar. E quando as palavras são insuficientes, os símbolos ajudam a traduzir.

A felicidade pode estar num sorriso gratuito e sincero, de quem sorri com olhos e com o coração. Em um gosto particular, como ouvir metal. Naquilo que talvez faça sentido apenas para alguns: já ouviu falar em “xurupita”? A felicidade pode ser um bem que não se compra: ter amigos, família. Ou pode estar numa ação transformadora, numa forma de fazer o bem ser solidário. Ou ainda, numa forma de ser: feliz por ser você mesmo, por ser assim.

A escola também é palco da felicidade, e ser feliz é ir para o colégio. Ser feliz também é dançar, jogar, fantasiar. Champagnat ensinou que é fazendo os outros felizes que encontramos nossa própria felicidade. E eles aprenderam a lição. 

Em meio à miscelânea de respostas, que muda de acordo com a idade, a região ou a colégio, há uma que esteve presente em todos os recreios. Algo que os estudantes, mesmo os de colégios maristas distantes, possuem em comum. Um certo jeito marista de ser feliz.

Mediadores da felicidade

Se a escola é um tempo de felicidade, o educador é o mediador. Aquele que conduz às descobertas da aprendizagem, à construção de um caminho que leve à realização. A partir dessa perspectiva, pode-se dizer que a felicidade é a finalidade da missão educativa e está presente em cada pequena ação ou pensamento que levam a criança e o jovem a traçar seu projeto de vida.
 
Educador que media a felicidade é aquele que indica os caminhos ou sussurra as possibilidades para que o aluno alcance o ser, desenvolva o que é, a base do que será. Como aparece nas palavras de Champagnat em carta ao Irmão Barthélemy, em janeiro de 1831, toda a vida deles será o eco daquilo que o educador lhe tiver ensinado. No livro O educador Marista – sua identidade, seu estilo educativo, de autoria dos espanhois Joseph Mª E. Pujol, Juan J. M. Barrio e Lluís S. Llansana (Edipucrs, 2008), encontramos que a finalidade educativa é “chegar a ser o que somos” ideal que, segundo os autores, antes mesmo de aparecer em Nietzsche, já se ouvia em Píndaro, um dos mais importantes poetas do século V a.C., em sua frase “Homem, torna-te no que és" .  

No tempo da escola, não só o estudante constrói seu ser. Também o educador se desenvolve como pessoa na relação de troca, de diálogo, de partilha com os alunos e seus pares. Também ele experiencia a busca da felicidade ao fazer da missão de educar o seu projeto de vida. E o que, então, significa para eles ser feliz? Assim como entre os estudantes, a interrogação esteve presente entre os educadores na dinâmica que marcou o lançamento da Campanha. 

Em cada expressão, palavra ou frase ficam clarom o comprometimento e os traços do jeito marista de educar. O afeto, a presença, o amor ao trabalho traduzem-se nas respostas que os educadores deram à questão central: “o que te faz feliz como educador marista?”. Construir, conquistar, conviver, compromisso. “Promover o encantamento”, despertar no estudante a magia do aprender e “fazer a diferença” em sua vida, em sua trajetória. “Redescobrir” o sentido de educar a cada novo amanhecer, e inspirar-se a fazer “o novo, a cada dia”. Inspiração que emana do sopro de vida, ao “ver o sorriso de uma criança” ou “do aluno” e estabelecer com ele uma relação recursiva feita “dar e receber amor e conhecimento”. 

Quando essa relação se estabelece, o professor se torna marca, pessoa para sempre lembrada como se o tempo da escola fosse congelado e deixasse intactos os melhores momentos que educador e estudante construíram juntos. Essa marca traz felicidade. O “reconhecimento dos alunos e ex-lunos”, “ser lembrado anos depois” e encontros que “revelam sua saudade, sua gratidão e seu carinho” são pedaços de felicidade que o educador vivencia na sua existência.
Sua felicidade também surge na “Convivência com a diversidade humana” e na capacidade de saber lidar com ela. Está na possibilidade de “Praticar  valores essenciais” e, também por isso, sentir o reconhecimento da sua contribuição “na formação dos valores éticos e cristãos”. Ou seja, na vivência da missão educativa marista e na construção de um aprender que se leva para a vida.
Quando os princípios da missão coincidem com os princípios da vida do educador, o trabalho ganha sentido. É o que acontece também quando ele sente que não está sozinho, e encontra a felicidade no fato de “sentir-se parte de uma equipe”, de tal forma que as relações transcendem ofício, e os vínculos tornam-se firmes como os familiares. É assim que alguns sentem e expressam: ser feliz é “estar na família marista”.

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