Revista da Província Marista do Rio Grande do Sul – Porto Alegre – RS
Ano 10 – número 36 – Primeiro semestre de 2010
Opinião
Professores da felicidade

Osvino Toillier, Presidente do SINEPE/RS

Foi Kirkegaard que nos ensinou: “A vida só pode ser compreendida, olhando-se para trás, mas só pode ser vivida, olhando para a frente”.

Pois, amigos, o Dia do Professor deveria levar à reflexão séria sobre a importância e o respeito que a educação deveria merecer em todos os níveis da sociedade.

Fala-se da importância estratégica da educação para o país, para o mercado, para a cadeia produtiva, mas não é neste foco em que quero me fixar, mas da educação no seu aspecto mais sublime, daquilo que diz respeito ao ser humano no que lhe é mais íntimo e nobre, que é ele mesmo, na sua integralidade, criado à imagem e semelhança de Deus, como coroa da criação, concebido para realizar-se plenamente e ser feliz.

Embora esta missão inicie essencial e fundamentalmente na família, é o professor que vai trabalhar com a criança e o jovem perspectivas concretas do que possa vir a ser, sem nunca, jamais, esquecer de onde vem  e  por onde passou.

 Todos concordamos que o cenário hoje é muito diferente, e a complexidade temática da sala de aula é totalmente diferente de algumas décadas passadas, mas não posso me render diante da aparente falta de perspectiva para o professor na sociedade atual, onde quer se fazer entender que possa ser substituído por tecnologia, diante do fantástico arsenal  e avassaladora onda de informação disponíveis.

A verdade, porém, é outra: a mais sofisticada tecnologia não é capaz de substituir o brilho do olho do professor. Esta é a certeza que deve alimentar e entusiasmar os educadores neste mundo globalizado e complicado, onde o professor já não é mais o único provedor de acesso à informação, mas ele foi promovido para missão muito mais elevada e sublime: ajudar a descobrir o caminho das pedras e trabalhar a autoestima do aluno, fazendo-o acreditar em seus sonhos.
Como não se emocionar com tão linda missão, meu caro professor, minha caríssima professora? Como não se apaixonar com delegação tão fantástica, de trabalhar com “fragmentos de eternidade”?

Sabe, me lembro dos meus amados professores com comovente ternura pelo exemplo de vida e pelo mundo mágico que despertaram dentro de mim, pelo testemunho de suas crenças, pela fé inquebrantável no ser humano, pelo estímulo para superar dificuldades: “vai, guri, tu tens condições”. 

Será que isto tudo estaria sepultado em algum lugar inacessível e perdido no longínquo passado? Não, não é possível. E, se for, vamos capturar este mundo mágico e trazer de volta, mesmo correndo o risco de ser agraciado com alguns adjetivos de uma época que constrangem o professor hoje, mas de que cujos valores todo o mundo tem saudade: respeito, disciplina, hierarquia e religião.

Eu sei que já falei sobre isto, mas o professor não prescinde do realejo. Eu queria encorajar o professor a retomar estes valores para salvar a escola, porque o que ouço por aí é desalentador: professores com medo de alunos, por causa da falta de limites, arrogância, quando, entre mestre e discípulo, deveria reinar relação amorosamente respeitosa, de encanto pela experiência de um e desejo de aprender de outro.

Só há um caminho para viabilizar isto: amor e diálogo, com compromissos claros que devem ser honrados. O máximo para o professor é sentir o aluno entrar na sala, vibrando pela aula que vai ter. Será que estou delirando? Será que é cenário perdido em lugar distante no planeta ou perdido com a infância?

Aprendi que é muito perigoso não educar bem, e o que torna o rio poderoso são suas margens. Talvez pudéssemos acrescentar a fantástica missão de construir pontes para unir margens e gerações. 

Por isso, toda ternura aos sábios da aldeia, na certeza de que a sublime missão do professor em vez de perder importância, ganhou novo status, e ele já pode promover o aluno a consultor, em vez de tê-lo como sujeito passivo e receptor de informações.

Aprendemos, com Fernanda Sobreira, no Congresso da Escola Particular Gaúcha em julho deste ano, que a escola é espaço da “mediação de plurais”, o que a transforma em laboratório de formação de individualidades a fim de  capacitar  para encarar o coletivo, sem perda de identidade. 

Compreender que deixamos a concretude do território das certezas para a fluidez dos tempos líquidos é o grande desafio do nosso tempo, vertente de tantas incertezas que desabam diariamente na sala de aula, que se transformam em desafios para o professor de um novo tempo, cujo ser humano está carente de afeto e desesperadamente em busca de sentido de vida. 

É aqui que a missão do professor ganha relevância, muito além da tarefa de desenvolver conteúdos de um programa. É aqui que está a missão profética, por  que tantos professores anseiam, mas tantas vezes abafada por outras vozes, que querem transformam em agente político e mero trabalhador da educação. 

Professores, não abram mão da sacralidade de sua missão, e isto não pode significar, em nenhum momento, desconsideração do valor do seu trabalho ou respeito a sua pessoa. Acho que a recuperação do respeito da sociedade pelo professor e a reconstrução de sua autoridade passa pela restauração da dimensão sublime da missão docente. 

Não permitam outra identificação do que professor. É questão semântica. Professor é alguém que professa crenças, plugado na inovação, mas consciente de que a escola é fiel depositária dos valores sagrados da humanidade. 

O professor é mais poderoso do que se possa imaginar! Basta lembrar os legado imperecível dos professores que todos tivemos. E Rubem Alves nos contempla com esta pérola: “Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma, continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. Professor assim não morre jamais”.
Não é de vibrar com esta perspectiva? É de chorar, meus amigos, mas de emoção e alegria. Tornemo-nos, pois, professores de felicidade!

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